
Review: Marvel’s Wolverine diverte, mas merecia mais ambição
Wolverine, amado personagem da Marvel, ganhou um jogo para chamar de seu com altos e baixos
Imagem: Insomniac
estir o uniforme e o jeitão brucutu de Wolverine não é tarefa fácil para qualquer estúdio que fosse assumir o desenvolvimento de uma adaptação do icônico personagem dos X-Men.
Marvel’s Wolverine ficou na mão de um dos melhores times da Sony, e a Insomniac estava ciente de que carregava uma enorme responsabilidade, especialmente após o sucesso dos três títulos de Spider-Man que ela brilhantemente entregou. Logan não é um personagem fácil: ele é durão, amoroso, engraçado e dramático em doses homeopáticas, sobretudo guiado por um um instinto de raiva que norteia sua frustração após ter feito parte de um experimento nefasto.
É verdade que o jogo passou por maus bocados com vazamentos que, invariavelmente, aumentaram a pressão sobre a Insomniac. Mas isso não muda o status da expectativa que vai existir em cima da ideia do Wolverine ter, na modernidade, um jogo para chamar de seu. E como ficou essa adaptação? Absurdamente divertida, mas curta e pouco ambiciosa. Confira!
Marvel’s Wolverine é competente, mas não surpreende
A aventura de Logan conta uma história que funciona, mas dificilmente será lembrada como o grande motivo para jogar. O game apresenta uma versão alternativa desse universo dos X-Men, que aqui é o “Time X”, trazendo alguns personagens conhecidos, mas sem simplesmente reproduzir aquilo que estamos acostumados a ver nas histórias envolvendo a escola do Professor Xavier. Jean Grey, Dentes de Sabre, Essex e outros nomes fazem parte dessa jornada, ajudando a construir uma interpretação própria desse universo, situado na Terra-1048, a mesma dos jogos do Spider-Man.
O grande destaque entre os personagens, naturalmente, é o próprio Wolverine. Logan é bem representado e mantém características fundamentais do personagem: um cara bruto, mal-humorado, agressivo e muitas vezes querendo resolver tudo da maneira menos delicada possível. No entanto, ainda existe um bom coração por baixo de toda essa brutalidade. É um Wolverine “reconhecível” e que funciona bem como protagonista.
O jogo não tenta suavizar demais aquilo que Wolverine é, e isso faz uma enorme diferença. Logan é bruto
Não é uma narrativa ruim e cumpre bem o papel de conduzir o anti-herói por toda a aventura, porém, o enredo segue caminhos relativamente previsíveis e raramente consegue surpreender. É aquela história que acompanha bem a experiência sem necessariamente se tornar o grande destaque dela.

Imagem: PlayStation
Combate é o brilho da jornada
Se a história é “apenas” competente, é no combate que Marvel’s Wolverine encontra sua maior qualidade. Lutar é extremamente satisfatório. Há peso nos golpes, violência, desmembramentos e aquela sensação de que estamos realmente controlando alguém capaz de fatiar os inimigos que aparecem pela frente como quem reparte manteiga. O jogo não tenta suavizar demais aquilo que Wolverine é, e isso faz uma enorme diferença.
O sistema também evolui ao longo da campanha. Novos golpes e possibilidades de combos são desbloqueados conforme avançamos, dando alguma progressão ao combate e permitindo variar a maneira de encarar os confrontos. Para quem gosta dos requintes do DualSense, a sensação fica ainda melhor, já que o game aproveita seus recursos para transmitir melhor o impacto das ações. É justamente quando coloca Logan numa arena cheia de inimigos que o jogo mostra sua melhor versão.
O problema é que esse excelente combate precisa carregar nas costas uma estrutura que oferece pouco além dele. Marvel’s Wolverine é extremamente linear — e esse fato, por si só, está longe de ser um defeito. O problema é o que o jogo (não) faz dentro dessa linearidade. Numa indústria na qual tantos títulos parecem obrigados a oferecer mapas gigantescos, dezenas de atividades e campanhas intermináveis, uma experiência mais direta pode até ser refrescante. O problema está em como essa linearidade foi construída.

Imagem: Insomniac Games
O problema não é ser linear: é ser simples demais
As fases de Marvel’s Wolverine são pobres em exploração. Na maior parte do tempo, o ciclo acaba se resumindo a avançar pelo cenário, enfrentar inimigos, caminhar mais um pouco e entrar em outro combate. Existem momentos de investigação nos quais Logan utiliza seus sentidos e instintos ferais para analisar o ambiente, encontrar rastros ou perceber elementos que uma pessoa normal não notaria. Também existem conversas, principalmente com Jean Grey, que ajudam a quebrar um pouco o ritmo, além de algumas cenas de perseguição. Ainda assim, é pouco.
A exploração propriamente dita é quase nula. Há garrafas de uísque para encontrar e baús espalhados pelos cenários e a coisa para por aí. A variedade termina rapidamente. Os baús, inclusive, entregam basicamente um único recurso, chamado simplesmente de materiais, utilizado na criação de novos uniformes. A variedade de trajes de Wolverine é interessante e funciona como uma recompensa visual divertida, mas até esse sistema poderia ser mais elaborado se existissem diferentes tipos de recursos ou descobertas.
E é justamente aqui que a comparação com outros jogos lineares se torna importante. Uncharted 4, por exemplo, também conduz o jogador por uma aventura essencialmente linear, mas sabe abrir essa estrutura em determinados momentos. Existem áreas maiores, especialmente os trechos de jipe, com colecionáveis muito bem escondidos e situações paralelas que fazem você querer “riscar” todos os ícones do mapinha que Nathan Drake carrega.
God of War de 2018 e God of War Ragnarök são outros bons exemplos. Nenhum deles precisa se transformar num enorme mundo aberto para oferecer exploração. Eles possuem uma espinha dorsal bastante direcionada, mas criam regiões semiabertas, caminhos opcionais, eventos paralelos e recompensas que fazem o jogador querer olhar para os lados – não apenas para frente ou para trás. São experiências que demonstram que linearidade não precisa significar falta de liberdade ou ausência de conteúdo secundário.

Imagem: Insomniac Games
Marvel’s Wolverine poderia ter seguido um caminho parecido se tivesse mais ambição. Não acredito que transformar o jogo em mais um mundo aberto, tal qual Marvel’s Spider-Man, fosse a solução. Pelo contrário: uma aventura mais direta combina bastante com o personagem. Mas pequenas áreas semiabertas, eventos opcionais, mais colecionáveis, caminhos alternativos e uma variedade maior de inimigos poderiam beneficiar enormemente a experiência sem destruir sua proposta.
Repetição começa a pesar, mas o combate salva
Essa falta de variedade se torna mais perceptível conforme as horas passam. O combate é muito bom, mas até um ótimo sistema de combate pode começar a perder impacto quando quase tudo ao redor dele existe apenas para levar o jogador à próxima luta. A variedade de inimigos também não é grande o suficiente para renovar constantemente os confrontos, e a sensação de repetição invariavelmente aparece.
É inevitável comparar este jogo com X-Men Origins: Wolverine, lançado na geração retrasada. Existem, de fato, semelhanças nessa ideia de uma aventura direta, brutal e focada principalmente em combate. Só que estamos em 2026. Houve um enorme salto tecnológico e também uma evolução considerável no design dos jogos desde aquela época. Um Wolverine moderno não precisa abandonar essa essência, mas deveria expandi-la. Ser inspirado naquela simplicidade é uma coisa; simplesmente depender dela tantos anos depois é outra.
Há pelo menos algumas tentativas de acrescentar conteúdo opcional. As chamadas Portas do Pesadelo apresentam desafios específicos, incluindo confrontos contra hordas, objetivos relacionados a tempo e sequências de travessia que precisam ser concluídas rapidamente. Quem pretende buscar o troféu de platina encontrará aqui alguns motivos para permanecer mais tempo no jogo. Ainda assim, não espere uma experiência particularmente longeva: a campanha deve ocupar algo em torno de 12 a 15 horas, dependendo naturalmente do ritmo de cada jogador, podendo alcançar pouco mais que isso para os 100%.

Imagem: Sony/Insomniac
E duração curta também não é automaticamente um problema, vale constar. O ponto volta a ser a quantidade de conteúdo oferecida dentro dessas horas. Quando estamos falando de um lançamento de aproximadamente R$ 400 e de um setembro recheado de pesos-pesados como Onimusha: Way of the Sword, Control: Resonant, Silent Hill: Townfall e The Blood of Dawnwalker, é inevitável que parte do público coloque quantidade, variedade e preço na balança.
Personagens, dublagem e apresentação são destaques
Por outro lado, a apresentação de Marvel’s Wolverine está entre seus pontos fortes. A dublagem em português está excelente; os personagens têm traços comportamentais com bastante personalidade, e nomes como Jean Grey, Dentes de Sabre e Essex ajudam a tornar as sequências narrativas mais interessantes.
Tecnicamente, Wolverine também impressiona. As cinemáticas têm aquele “selo Sony” em sua direção, com gráficos em excelente nível e performance que se mostrou bastante sólida durante a minha experiência. O jogo oferece opções que chegam aos 60 fps sem quedas perceptíveis, além de recursos envolvendo ray tracing e até possibilidades voltadas a telas de 120 Hz.
Nem tudo, porém, funcionou perfeitamente durante o período de review. Mais de uma vez encontrei problemas de progressão nos quais um inimigo necessário para avançar acabou preso ou inacessível no cenário. Como a próxima etapa só era liberada depois que todos os adversários fossem derrotados, fiquei impossibilitado de prosseguir e precisei recarregar o último checkpoint, repetindo toda a onda de inimigos. Também aconteceram situações em que algum evento necessário para continuar simplesmente não foi ativado corretamente. São problemas que podem ser corrigidos pela Insomniac através de atualizações, mas que estavam presentes durante minha experiência.

Imagem: Insomniac Games
Veredito
Marvel’s Wolverine é um bom jogo. Seu combate é visceral, responsivo e extremamente satisfatório; controlar Logan funciona muito bem, o DualSense complementa a experiência, os personagens esbanjam personalidade e toda a apresentação audiovisual demonstra o nível de produção que esperamos de um grande exclusivo do PlayStation. Quem é muito fã do Wolverine provavelmente encontrará bastante coisa para curtir aqui.
Mas é também um jogo que parece menos ambicioso do que poderia ser. E isso fica ainda mais evidente quando olhamos para o histórico recente da própria Insomniac. Marvel’s Spider-Man, Miles Morales e Spider-Man 2 possuem propostas diferentes e são jogos de mundo aberto, portanto, não faria sentido exigir que Marvel’s Wolverine simplesmente repetisse essa fórmula. A comparação relevante está na quantidade de sistemas, mecânicas e possibilidades: Wolverine transmite a sensação de ser um projeto estruturalmente muito mais simples.
No fim, volto ao ponto mais importante desta análise: o problema de Marvel’s Wolverine não é ser linear. O problema é ser simples demais dentro dessa linearidade. Uncharted, God of War e tantos outros jogos já demonstraram que é possível criar aventuras direcionadas e, ao mesmo tempo, recheadas de pequenas descobertas, atividades, interações e variações de ritmo. Wolverine possui uma excelente base, especialmente em seu combate, mas parece satisfeito demais em repetir esse único ciclo.
É uma experiência positiva, divertida e muito bem produzida, mas que poderia ter ido além disso. Wolverine merecia uma aventura que preservasse sua proposta direta sem abrir mão de maior variedade e ambição. Quem entrar esperando fatiar inimigos com Logan provavelmente sairá satisfeito. Quem espera encontrar o mesmo salto de ambição que a Insomniac demonstrou em seus maiores projetos talvez termine a campanha com uma sensação diferente: a de ter jogado algo bom, mas que poderia ter sido muito melhor.
Analisado no PS5 Pro.
Um código de Marvel’s Wolverine foi fornecido pelo PlayStation Brasil para a realização desta análise.
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Marvel's Wolverine
Publisher: Sony
Desenvolvedora: Insomniac Games
Plataformas: PS5
Lançamento: 15/09/2026
Tempo de review: 20 horas
Marvel's Wolverine tem aquela apresentação de ponta que se espera do PlayStation, mas carece de estrutura ambiciosa. O problema não é ser linear, é ser simples demais dentro disso.
Prós
- Combate visceral e satisfatório
- Ótima dublagem faz personagens serem ainda melhores
- Gráficos e performance dão um show
- Diversidade de uniformes agrada bastante
Contras
- "Fórmula Sony" apresenta sinais de desgaste
- Bugs com problemas de progressão
- Simples até demais em sua linearidade extrema










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